A moda é desejo, construção, pertencimento, mas acima de tudo história. Vemos histórias contadas em cada coleção lançada por grandes marcas a cada novo ano e, não diferente, Alessandro Michele, criou uma atmosfera única em sua nova coleção para Gucci, nomeada Twinsburg. Baseada na sua vida e na história da sua mãe que tinha uma irmã gêmea.
“Sou filho de duas mães: a mãe Eralda e a mãe Giuliana. Duas mulheres extraordinárias que fizeram de sua gemelaridade o selo definitivo de sua existência. Elas viviam no mesmo corpo. Vestiam-se e penteavam os cabelos da mesma maneira. Elas foram magicamente espelhadas. Uma multiplicou a outra. Esse era o meu mundo, perfeitamente duplo e duplicado”.
A passarela foi divida ao meio através de um painel e começou com cada um dos 68 gêmeos desfilando em uma parte, onde o público só conseguia ver uma das passarelas. Após o desfile começar, este painel de fotografias foi levantado, transformando a passarela em uma espécie de ‘espelho’ em que cada modelo e seu gêmeo desfilaram simultaneamente. Já no final, desfilaram de as mão para intensificar ainda mais a intenção da dualidade.
“A graça de seu amor redobrado e ampliado deu origem ao meu eterno fascínio pelo duplo, por tudo que produz um reflexo igual a si mesmo. Invariavelmente percebo uma aura de beleza em qualquer imagem espelhada”, diz Michele.
O diretor criativo acrescentou: “Twinsburg joga esse jogo, produzindo uma tensão na relação entre o original e a cópia. Como num passe de mágica, as roupas são duplicadas. O efeito é alienante e ambíguo. Quase uma fissura na ideia de identidade, e depois a revelação: as mesmas roupas emanam qualidades diferentes em corpos aparentemente idênticos. A moda, afinal, vive de multiplicações em série que não impedem a expressão mais genuína de toda individualidade possível.”
Os símbolos dessa dualidade estavam sendo apresentados em toda a coleção, como acessórios e estampas de Gremlins, lembrando que no filme de sucesso eles apresentavam duas facetas, a Mogwai, que seria o estágio infantil destes seres, no qual são quase inofensivos, e Gremlins, que são muito perigosos.

Além disso, um dos looks mais marcantes da passarela foi a jaqueta bomber laranja com paetês com a palavra ‘FUORI!!!’, uma homenagem à revista produzida nos anos 70 pelo Fronte Unitario Omosessuale Rivoluzionario Italiano, um dos primeiros pilares do movimento LGTBQ+ no país, que traduzido para o espanhol significa “FORA” e foi usada pelos gêmeos espanhóis. Lembrando o desfile ocorreu antes das eleições na Itália, seria uma mensagem?

Um desfile que nos faz refletir sobre nossa dualidade, nosso espelhamento e a busca por pertencimento, parecer o outro, se inserir. Por outro lado, mostra que cada ser é único e que as pessoas aparentemente idênticas são parecidas, mas não iguais. Além disso, mostra como a moda pode nos auxiliar a criar e a construir a nossa própria identidade em um mundo cada dia mais parecido, onde as pessoas buscam por procedimentos estéticos e cirúrgicos e, assim, estão perdendo o que as tornam únicas e as diferenciam uma das outras.
Ademais, a mensagem é clara, a moda é uma forma de manifesto, muito além de somente uma peça de vestimenta. É ela que que muitas vezes fala, sem usar palavras, criando símbolos e lembranças nas pessoas e na história.
E você, qual é a história que quer contar?




Um comentário sobre “Qual é a moda que você veste?”